A ENGENHARIA DIVORCIOU-SE DE BH, IRONICAMENTE POR CULPA DE ALGUNS ENGENHEIROS

BH divorciou-se da boa engenharia, ironicamente por culpa de alguns engenheiros. E isso não aconteceu da noite para o dia, foi um processo longo, que atravessou governos, independente de partidos. Por décadas, políticos e governantes não se preocuparam com a origem dos técnicos que pensavam a cidade, suas ideologias e a fonte de conhecimento usada para a formação da massa crítica que tem a missão de intervir no tecido urbano. Existe em BH um grupo de pensadores que não consideram a cidade como ela é, mas como ela deveria ser. Em uníssono, eles repetem: “A cidade é para as pessoas”.  Afirmam categoricamente que obras não resolvem o caos do transito. Sobre a primeira afirmação, um hino dos xiitas, de fato eles tem razão, “a cidade é para as pessoas”, as que estão a pé, as que se deslocam de BRT, uma minoria que usa bikes e as que optaram pelo carro como meio de transporte. No entanto, esses últimos representam 1,8 milhões de indivíduos que fizeram a opção pelo transporte individual, ou ¾ da população. Já a segunda afirmativa defendida em coro pela “turma do deixa disso”, de que obras não resolvem o problema da lentidão do trafego e a falta de fluidez que adoece milhares de pessoas vítimas do estresse provocado pelo caos no transito, é importante lembrar que BH ficou praticamente 40 anos sem grandes intervenções de engenharia. E que, portanto, não se deve falar em obras para o futuro, mas do passivo que a cidade vem acumulando ha décadas, muito em função da tese de que elas não resolvem. Se não resolvem, o que resolverá? Túneis, trincheiras, viadutos, elevados, passarelas, alargamento de pistas, e toda sorte de obras de arte da engenharia que não podem mais esperar mudança de paradigma e boa fé de quem pensa a cidade não é sonho, é a solução. Os remédios apresentados pelos gestores da cidade, neste ato representada pela SUDECAP e BH Trans, só servem para adiar e encarecer o que terá que ser feito, mais cedo ou mais tarde. Calcados em discursos ensaiados e politicamente corretos, mas inaplicáveis a realidade de BH, eles seguem desconsiderando a realidade, tomando como base para justificar a desordem aquilo que deveria ser no entendimento deles, e não o mundo real como ele se apresenta. A pseudociência do planejamento urbano belo-horizontino e seus ‘cumpanheiros’,”xiitas da imobilidade urbana”, não conseguem se afastar do conforto ilusório das vontades, das superstições, do simplismo e dos símbolos (aparentemente modernos) e ainda não se lançaram na aventura de investigar o mundo real que nos cerca. Sonham com uma BH em território europeu, longe do Brasil. A aparecia das coisas e o modo como funcionam estão inseparavelmente unidos, e muito mais nas cidades do que em qualquer outro lugar. Porém, quem está interessado apenas em como uma cidade “deveria” parecer e desinteressado de como ela funciona na prática, ficará desapontado com os resultados. BH é a prova inequívoca disso. É tolice planejar a aparência de uma cidade sem saber que tipo de ordem inata e funcional ela possui. Encarar a aparência como objetivo primordial ou como preocupação central não leva a nada, a não ser a mais problemas. E esse é o “X”‘da questão, os pensadores, donos da caneta não enxergam BH. Chegue aí na sua janela e conte quantos indivíduos estão a pé, de bicicleta e de ônibus? Agora conte quantos estão de carro? Não adianta enfiar transporte público goela abaixo do povo que deseja deslocar se de carro. Os engenheiros e urbanistas que tentam exorcizar o carro esquecem que eles não são conduzidos por et’s, mas por pessoas que fizeram escolhas e que elas precisam ser respeitadas. Varrer o “diabo” do carro para debaixo do tapete com medidas restritivas não é resposta para o problema. Ir e vir, da forma que quiser é direito inalienável que a “santa” democracia garante a todos. Engenheiros e gestores competentes não legislam causa própria, apresentam soluções de transporte público, para quem deseja transporte público; e fluidez para quem não usa e jamais usará ônibus, metro ou bicicleta. Apresentar como remédio, o estreitamento de vias, a instalação de radares, medidas veladas de alargamento de passeios, ciclovias inúteis, sinais em cada esquina e conversa politicamente correta é sinal de que estão afastados da realidade.

José Aparecido Ribeiro / Consultor em Assuntos Urbanos / Autor do Blog SOS Mobilidade Urbana

Membro da CTT/SME – Diretor da ACMinas – 31-99953-7945

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