Entrevista concedida por José Aparecido Ribeiro ao www.viafanzine.jor.br

José Aparecido Ribeiro, 44 anos, é consultor em Assuntos Urbanos e Mobilidade. Nascido e residente em Belo Horizonte, ele tem sido uma voz quase que única, a usar a mídia para clamar pelo bom senso das autoridades, no sentido de racionalizar o trânsito e suas vias na capital mineira. Consultor para empresas e governamental, ele é membro da ONG SOS Mobilidade Urbana (www.zeaparecido.org). Nesta entrevista nos concedida gentilmente, ele nos fala dos problemas do trânsito nas principais cidades brasileira. Em especial, ele nos dá uma verdadeira aula sobre o trânsito e o problema das vias de tráfego da capital mineira. Ribeiro faz críticas e sugestões às autoridades gestoras da mobilidade em Minas Gerais, incluindo o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda e o governador Antônio Anastásia. Para ele, somente em Belo Horizonte, são necessárias, atualmente, 150 obras emergenciais para melhor fluidez do trânsito. Dentre vários assuntos, ele também aborda o metrô de Belo Horizonte e a recente liberação da verba de R$ 2 bilhões pelo governo federal para sua implementação.

 

 

Via Fanzine – Qual é hoje o principal problema do trânsito nas médias e grandes cidades brasileiras?

José Aparecido Ribeiro – As cidades brasileiras ficaram paradas no tempo em relação à infraestrutura, enquanto a indústria automobilística ganhou à dianteira da matriz industrial do País. Para agravar, não houve evolução no modelo de transporte coletivo que continua concentrado em carrocerias de ônibus montados sob plataformas de caminhões. Todos inadequados para o clima e para a topografia das cidades brasileiras, que possuem clima de temperado a quente. A temperatura média dentro de um ônibus, na maioria das cidades ultrapassa 44 graus; e isso não incentiva ninguém a trocar o transporte privado pelo público. O resultado é que as cidades estão cada vez mais abarrotadas de carros e o caos toma conta das ruas. Para completar, o crédito foi facilitado nos últimos anos e quem pode, não pensa duas vezes para ficar livre do ônibus ou nos metrôs lotados. A frota de ônibus brasileira ultrapassa 180 mil veículos e a maioria deles não tem equipamentos indispensáveis em um país de clima tropical como o Brasil. São poucos os que possuem ar-condicionado ou exaustão, o que torna o ambiente dentro dos ônibus insalubre. O assunto sai da esfera do conforto e passa para o campo da saúde pública, isto por que o ambiente dentro dos coletivos é propício à transmissão de doenças infectocontagiosas por via respiratória. Enquanto a matriz da indústria brasileira tiver o carro como seu carro-chefe, pouca coisa muda.

 

VF – E qual seria a solução para estes problemas?

JAR – Investir pesado em transporte público de boa qualidade. Metrô, Monohail, BRT e transporte sobre trilhos, tanto para passageiros, quanto para carga. O problema é que o custo disso é altíssimo e o resultado é de longo prazo. Nossos políticos são imediatistas e precisam garantir recursos para as suas campanhas a curto prazo. Isso se dá através de obras pulverizadas e feitas para durar pouco, sobretudo, quando falamos de pavimentação e estradas.

 

VF – Cidades de porte médio, como, por exemplo, Itaúna, no Centro-oeste de Minas, com 85 mil habitantes, já sofrem com o grande aumento de veículos nas suas ruas centrais. Nesse município, está ocorrendo engarrafamentos diariamente nos horários de pico e o problema só tende a agravar. O que pode fazer para racionalizar o seu trânsito, uma cidade que aumentou sua frota de veículos em cerca de 200% nos últimos 10 anos?

JAR – Transporte coletivo de boa qualidade e obras. As cidades pequenas estão em situação muito mais grave do que as grandes, pois o “Pacto Federativo” concentra nos governos estaduais e federal os recursos provenientes de impostos. Isso acaba por deixa-los à míngua, ou de pires nas mãos para pagar suas despesas. A maioria das cidades médias mal dá conta de pagar o funcionalismo e não sobra dinheiro paras as obras de infraestrutura. Ou seja, muda o “Pacto Federativo”, permitindo que os impostos fiquem no Município ou obras só com muita articulação ou barganhas que não são recomendáveis.

 

VF – Já em Belo Horizonte, um grave e antigo problema de trânsito tem consumido vidas, quase que mensalmente. Falo do Anel Rodoviário, uma junção viária que se tornou um problema insolúvel, mesmo após o passar de muitos anos, entra-sai de gestores e alguns milhões de reais gastos. Qual é, realmente, o problema do Anel Rodoviário de BH e porque este não é solucionado?

JAR – Uma via inadequada para a sua função de “auto pista”. Ela não foi construída para isso, mas cumpre esse papel. Contudo, para ser AUTO PISTA, precisaria ter quatro pistas de cada lado, com áreas de escape para panes ou perdas de freio. Especialmente, no trecho de oito quilômetros, entre Olhos D’água e Betânia, onde a incidência de acidentes por perda de freios é grande. Além disso, ela não poderia ter estreitamentos de pistas que provocam engarrafamentos – possui 11. Essa é a maior causa das tragédias. Não se interrompe o trafego de uma “auto pista” bruscamente, sobretudo, em uma via que recebe diariamente 130 mil veículos, com velocidade média de 100km/h, que é a correta e não 70Km, como querem os que atacam as consequências e não as causas.

 

‘O BRT vai continuar atendendo a quem já usa o transporte público,

ao contrario do que pensa os idealizadores do modelo. Não vai atender

a quem deveria, que são os cidadãos que usam carros ou motos’

 

VF – E há um agravante no Anel: ali também conflui caminhões, ônibus e veículos de passeio, receita principal para as “fatalidades” ocorridas naquela rodovia.

JAR – Sim. Se não bastasse a categoria de trafego da via ser incompatível com a sua natureza, o numero de caminhões é maior do que o recomendável. A solução além da reforma que inclui 12 passarelas, oito trincheiras e seis viadutos, é a construção do Rodoanel, retirando do atual Anel o tráfego pesado de caminhões. Falta vontade política, falta compromisso dos políticos e sobra incompetência por parte do Dnit. O Assunto é da alçada da Presidente, do Ministro dos Transportes e do Governador do Estado, mas está sendo tratado por funcionários e políticos de segundo e terceiro escalão. Tenho minhas duvidas se será resolvido antes de 2015; Enquanto isso, o povo continua morrendo e a culpa sendo transferida para quem é vítima: eu, você, quem nos lê e teve a infelicidade de ser governado por políticos sem compromisso com o povo.

 

VF – Recentemente Via Fanzine publicou um artigo de autoria do senhor, intitulado, “Obras emergenciais no Trânsito de BH”, no qual o senhor aponta que, apenas cinco, das 150 obras que a capital mineira necessita com urgência, serão executadas até a Copa de 2014. Para o senhor, por que, certos problemas de Belo Horizonte não são resolvidos por nenhum administradorr ao longo de tantas décadas?

JAR – Os homens que de fato decidem os rumos da cidade são os mesmo há mais de 20 anos. Um dos principais chama-se Murilo Valadares, que é elemento estratégico do PT. Ele e vários de seus companheiros são contra obra, acreditam que obras atrapalham a vida das pessoas. O discurso é de que a cidade é para as pessoas. Ironicamente eles não apresentam um modelo de transporte coletivo que incentive as pessoas que têm carro deixá-los em casa para usar o transporte público. O transporte público de qualidade ainda não existe para o publico que precisa de incentivos para usá-lo. Ele existe apenas para quem não tem outras alternativas. O pior é que o BRT vai continuar atendendo a quem já usa o transporte público, ao contrario do que pensa os idealizadores do modelo. Não vai atender a quem deveria, que são os cidadãos que usam carros ou motos. Para essas pessoas o transporte é o metrô ou Monohail, interligados a ônibus confortáveis e com acesso fácil, o que demandaria pelo menos 200 km de linhas para Metrô, Monohail e BRT. Uma alternativa seria a substituição das carrocerias atuais para modelos mais modernos e confortáveis. Este modelo que usamos hoje está aí, faz quase 60 anos, está recebendo apenas maquiagens. Portanto, quem acha que o prefeito e os vereadores conhecem a cidade, está enganado. O primeiro não viveu em Belo Horizonte e passou a maior parte da vida dele dentro de suas empresas. Quando ficou rico foi embora do Brasil velejar pelo mundo. Já os vereadores, recomendo a leitura das páginas 8 e 9 do caderno ‘Política’ do jornal Estado de Minas, do dia 08/09, lá se encontra a resposta para o que eles fazem e qual o resultado dão para a Sociedade.

 

VF – Por favor, cite, pelo menos, outras cinco obras consideradas emergenciais que deveriam ser executadas em Belo Horizonte, a seu ver, até a Copa de 2014.

JAR – As avenidas do Contorno, Cristiano Machado, Amazonas, Antônio Carlos e a própria Via Expressa, que não é expressa, precisam ser de fato, e de direito, vias expressas e se interligarem sem interrupção de tráfego. Isso por cima e por baixo. Só aí, pelo menos, 30 obras importantes precisariam ser feitas. Outras inadiáveis que estão esperando a boa vontade e o entendimento de que elas são inevitáveis e terão que ser feitas com ou sem transporte publico. Bairros como, Buritis, Castelo, Alípio de Melo, Ouro Preto, Venda Nova, Coração Eucarístico, Carmo Sion, Belvedere, região dos hospitais, Santa Teresa, Barreiro, Serrano, Glória, Betânia e dezenas de outros, precisam de obras urgentes… Todas elas são regiões saturadas e que não comportam mais puxadinhos. Precisam de trincheiras, túneis e elevados.

 

‘A solução para BH passa pela substituição das carrocerias de ônibus,

metrô, estacionamentos públicos e de baixo custo

nas proximidades das estações de metrô e do BRT’

 

VF –  Um dos maiores clamores sociais da Grande BH é a ampliação das linhas do metrô. No entanto, mesmo com a cidade sendo uma das sedes da Copa de 2014, o belorizontino não terá a devida ampliação dos ramais de seu metrô. Por que houve tão pouca vontade política para que o metro fosse incrementado antes e, somente agora, quase no fim de 2011, surge a presidente Dilma em cena, anunciando alguns investimentos?

JAR – Incompetência, falta de vocação para a política, interesse único de defender os próprios umbigos e dos “amigos”. Partidos corruptos, dirigidos por gente desqualificada e que só pensa nos interesses próprios. A política no Brasil apodreceu, serve a grupos. As exceções existem, são poucas. Dizem que se partido fosse bom, não seria partido,  mas inteiro. O fato é que o modelo eleitoral está falido e não permite aos cidadãos de bem o acesso à política. Em regimes democráticos republicanos qualquer um poder ser candidato a cargo legislativo, mesmo que eles não sejam recomendáveis para “qualquer um”. A política é para os bons cidadãos, os que possuem vocação. contudo, o que assistimos é exatamente o contrario, ela está sendo exercida pelos piores, os que não têm compromisso com a ética e, tampouco, possuem vocação. Em um país onde as eleições são compradas, não podemos esperar muito de quem exerce cargo eletivo. Cada cargo tem um preço e não é o caráter, o idealismo que são medidos, mas o quanto cada candidato e seus financiadores podem pagar pelo voto. Ou seja, esse é o cenário que explica o motivo da inércia, da falta de obras e da irresponsabilidade de agentes públicos com as estradas e obras nas cidades. Enquanto isso, o Judiciário dorme em berço esplêndido, fingindo não ver nada. Todos com o “burro na sombra”. Quando falo do Judiciário, não podemos nos esquecer do Ministério Público, que corre atrás de ladrão de galinha enquanto os vigaristas da política fazem a festa e o povo espera por justiça.

 

VF – A presidente Dilma esteve em Belo Horizonte na semana passada, onde anunciou a liberação de R$ 2 bilhões para as obra do metrô. Como senhor vê esta medida e em que ela implicará, em termos práticos, na ampliação do metro de Belo Horizonte? Isso será o suficiente?

JAR – Todo recurso federal que é liberado para obras em Belo Horizonte é bem vindo. Infelizmente, nosso “Pacto Federativo” tira dos municípios e não devolve como eles precisam, já que é na cidade que as pessoas vivem e são nelas também que as demandas são maiores. As cidades brasileiras estão paradas no tempo no que diz respeito à habitação, obras viárias em Belo Horizonte não são diferentes. Foram praticamente 40 anos sem grandes investimentos. Mesmo com as obras dos governos Estadual e Municipal, ainda falta muito para ser feito. São 150 obras que a cidade necessita, independente de metrô ou BRT. Elas terão que ser feitas mais cedo ou mais tarde, não há como preteri-las. O projeto original do metrô, que está sendo resgatado, está contemplando parte do que a cidade efetivamente demanda. Desde sua concepção até hoje, muita coisa mudou em Belo Horizonte. Regiões antes com pouca densidade demográfica, hoje estão superpopulosas e demandando linhas do metrô. É o caso, por exemplo, das regiões do Buritis, Castelo, Santa Lucia, Luxemburgo, Belvedere e outras. Não podemos pensar metrô só para populações de baixa renda, mas para regiões que têm acesso ao carro. Essas regiões cresceram verticalmente e hoje sofrem com engarrafamentos, não tendo opções que incentivem a troca do privado pelo público. O único transporte coletivo que chega até elas é o ônibus, que tem baixa qualidade e não é usado por quem deveria (proprietários de carros e motos). Portanto, não podemos acreditar que apenas um meio de transporte vai resolver o problema da mobilidade urbana de BH, mas um conjunto de modelos que inclui metrô, BRT, Monohail e ônibus de boa qualidade. Só assim, quem usa carro ou moto vai se sentir atraído para o transporte público. O planejamento para novas linhas precisa considerar a densidade demográfica de cada região. Precisamos oferecer transporte coletivo para todos os cidadãos e não para parcela deles. Precisamos pensar também em estações intermodais capazes de permitir a baldeação com apenas um ticket e nos estacionamentos subterrâneos, com custos baixos. Só assim as pessoas começarão a fazer, cada uma, a sua parte. Enquanto esses gargalos não forem tratados, não adianta pedir colaboração de motoristas. Vivemos em uma sociedade individualista e que não sabe fazer sacrifícios. Todo mundo quer facilidades, mesmo que isso signifique horas dentro de carros ou ônibus lotados, para os que não têm alternativas.

 

‘A BH Trans é um lobo na pele de cordeiro. Deveria ser extinta e substituída

por uma secretaria de engenharia de transito e transporte com foco em soluções,

engenharia e não em uma máquina de arrecadação que não consegue melhorar o transito’

 

VF – Apesar das inúmeras promessas descumpridas ou planos inconcebíveis nesse entra e sai de administradores, o corredor exclusivo para ônibus (BRT) da avenida Antônio Carlos foi concluído e desafogou, sobremaneira, o trânsito para a região da Pampulha. No entanto, outros projetos semelhantes não decolaram, entre eles, o que seria o BRT da avenida Pedro II. Por que estes cronogramas pré-estabelecidos não foram cumpridos pelos administrados públicos?

JAR – Por que eles viram moeda de troca para políticos. Eles precisam de promessas para as eleições. Nem de longe ambos irão resolver o problema da mobilidade urbana. A solução para BH passa pela substituição das carrocerias de ônibus, metrô, estacionamentos públicos e de baixo custo nas proximidades das estações de metrô e do BRT. Acredito também no modelo “Monohail” muito utilizado na Ásia, Europa e nos EUA. Custa um quatro do valor do metrô e carrega um número significativo de passageiros. Mas, tudo isso, na cabeça dos “iluminados” que pensam a cidade, é utopia. Não sabem, inclusive, que as empresas fabricantes desse modelo de transporte, (da Alemanha e Bélgica) fazem isso em sistema de PPP, diminuindo significativamente o custo de construção. A verdade é que, além de desconhecer, eles não acreditam no modelo.

 

VF – A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) nessa administração do prefeito Márcio Lacerda tem criado algumas ciclovias por algumas avenidas vitais de suas regionais. Como o senhor vê esta iniciativa e o que a sociedade ganha com ela?

JAR – Vejo com ressalvas. A cidade tem topografia acidentada, clima quente e pouco espaço para pedestres e carros. Não adianta tapar o sol com a peneira, não estamos em Bogotá, nem em Santigo e, tampouco, na Cidade do México ou Curitiba. Em todas essas cidades, PBH, o clima é de temperado a frio e a topografia pouco acidentada. Nenhuma dessas cidades se compara a BH. Uma coisa é a ideologia e os projetos no papel, outra são os projetos na prática. Vamos convidar os urbanistas para andar pela cidade e eles irão entender o que estamos dizendo. Não quero dizer que não seja possível ter ciclovia, mas que as ciclovias não irão resolver o problema da mobilidade urbana. Até porque, devemos ter 200 dias de seca e 165 de chuva e ciclovia com chuva é um mero espaço vazio. Quando planejamos a cidade e os espaços de circulação de pessoas, carros e transporte público, precisamos considerar clima, topografia e os costumes das pessoas. O discurso é moderno e serve para outras cidades, não para BH.

 

VF – O trânsito de Belo Horizonte aumentou cerca de 110% somente na última década. Por toda parte uma grande quantidade de veículos está a transitar. Por dia, centenas de veículos novos vão às ruas. A que ponto vamos chegar com a superlotação das vias de trânsito em na capital mineira?

JAR – Já chegamos, não vamos chegar. O ato de se deslocar nos horários de pico virou um martírio. A PBH tenta transferir a responsabilidade do caos para o motorista e sua falta de educação. De fato, há por parte dos motoristas, falta de respeito às leis, porém, sobre estes, só o rigor da lei e obras que façam a cidade fluir. Mas infelizmente, a máxima nos bastidores da PBH é evitar as obras. Nossos urbanistas pensam no modelo europeu, mas esquecem que lá as cidades possuem centenas de quilômetros de metrô e não apenas 28. Eles são bons para pedir os outros para fazer sacrifícios. O que não vale para eles, pois continuam andando com os seus carros, e não sabem o que é entrar em ônibus quente, sujo, que não cumpre horário e é um risco de saúde. Fácil falar e sugerir, difícil cumprir o que se indica. É a tese de fazer o que eu falo e não fazer o que eu faço. A cidade precisa de obras, muitas obras, são  mais de 150 pelos quatro cantos da capital. Não dá mais para postergá-las. Enquanto elas não vêm, a inteligência e o planejamento deveriam ser usados. Mas, o que se vê é a ausência total da BH Trans e da Guarda Municipal nos gargalos, onde eles deveriam atuar. Aliás, a BH Urans tpossui 430 agentes, mas a cidade precisa de no mínimo de 1.500 homens atuando com vigor e rigor no transito. Sou a favor de um convênio com o BPTran, deixando a tarefa de multar e disciplinar o trânsito para a PM, concentrando os esforços do contingente da BH Trans para a tarefa de engenharia e fiscalização. Sei que o código de trânsito foi responsável pela municipalização da fiscalização do transito, mas sei também que é possível um convênio que possibilite essas mudanças. Tudo depende de decisões políticas e vontade. O que não dá mais é ver o caos tomar conta da cidade e os responsáveis pelo transito continuarem inertes.

 

‘O que a maioria das pessoas não sabe é que 83% das multas por

“excesso” de velocidade acontecem por uma diferença de 3 a 5 km/h’

 

VF – Muitos motoristas têm se queixado, inclusive, publicamente contra a BHTrans, autarquia que gere o tráfego da capital. Uma das principais queixas é a ineficiência para a gerência do trânsito em diversos aspectos. Porém, o mais grave, são queixas de que a BH Trans criou o que seria a “indústria da multa”, e estaria se dedicando quase que exclusivamente ao trabalho de multar os motoristas mineiros. Essa denúncia procede ou é mera “lenda urbana”?

JAR – Sim, procede. É um absurdo que o órgão responsável pela gestão do trânsito paute sua conduta com passividade. A birra da BH Trans contra os motoristas está no fato de que ela perdeu o poder da caneta como pedagogia que ela achava ser o certo. De fato, o caminho para a disciplina no trânsito é a multa, mas este não deve ser o foco. Para compensar, está usando o meio eletrônico, amparada pelo código nacional de transito. O que é legal, mas também imoral, se considerarmos que uma coisa é a indisciplina e outra é a falta de obras e programas capazes de dar fluidez ao tráfego. O primeiro não é causa do segundo. A cidade que tem velocidade máxima de 60 km e penaliza motoristas a 68 km, poderia ter, nos corredores com pouco trafego de pedestres, velocidade de 70km, sem prejuízos para a segurança das pessoas e nem dos motoristas. O que a maioria das pessoas não sabe é que 83% das multas por “excesso” de velocidade acontecem por uma diferença de 3 a 5 km/h. O que prova, de forma inequívoca, que o interesse é único e exclusivo de arrecadar. A caneta parou de funcionar, mas o radar está compensando. Resumindo, a BH Trans é um lobo na pele de cordeiro. Deveria ser extinta e substituída por uma secretaria de engenharia de transito e transporte com foco em soluções, engenharia e não em uma máquina de arrecadação que não consegue melhorar o transito. A cidade vive à deriva dos sinais que, a propósito, são em numero  maior do que o necessário, alimentando também uma outra indústria que poucos sabem que existe…

JAR –

 

VF – Por que após tantos anos em vigor do Código de Trânsito, até agora Minas Gerais ainda não regulamentou a inspeção veicular?

JAR – Falta vontade política.

 

VF – O que o senhor gostaria de falar ao prefeito de Belo Horizonte, empresário Márcio Lacerda, e ao governador de Minas Gerais, professor Antônio Anastasia, sobre o trânsito em nossa capital e Estado?

JAR – Levantem de suas cadeiras, parem de ouvir assessores que falam o que vocês gostam de ouvir e não o que vocês precisam ouvir e venham conhecer a cidade e o estado que vocês governam. Se não tem quem lhes mostre, estamos à disposição para apontar os mais de 150 gargalos que a cidade possui, todos esperando por obras, ou no mínimo, atitudes dos responsáveis pela organização do trânsito. O colapso que é evidente está fazendo a vida das pessoas ficar cada dia pior. O transito de Belo Horizonte virou um problema de saúde publica.

 

‘Os governos de um país que tem a maior carga tributária do mundo deveriam ter vergonha de

autorizar a cobrança de pedágio. Isso é fruto da alienação do povo e da qualidade dos nossos políticos.

Pelos impostos que pagamos, deveríamos ter as melhores estradas do mundo’

 

VF – Sendo de conhecimento público que o uso da descarga livre ou de silenciadores defeituosos nas motocicletas constitui infração (Art. 230 inciso XI), para o senhor, por que o órgão responsável por tais fiscalizações não faz cumprir a lei sobre ruídos acima do permitido? 

JAR – Falta instrumental e, sobretudo, algo que não tem muito valor para os que governam: gente qualificada, ganhando salários dignos e bem treinada. Nossa Polícia Civil está sucateada, com a moral baixa e fazendo o “basiquinho”. Eles fingem que trabalham e o governo finge que paga. Quando vemos um juiz e um promotor ganhar R$ 25 mil reais e um delegado ganhar R$ 6 mil reais, tudo fica claro. Basta um exercício de lógica pura e para entender que algo está errado…

 

VF – Outra queixa popular é da cobrança dos pedágios, vista por muitas como inconstitucional ou abusiva, já que outros impostos que pagamos é que deveriam pagar manutenção e implementação de vias púbicas. Em Itaúna, a empresa Nascente das Gerais, através do então governo de Aécio Neves e com apoio do deputado estadual itaunense e “aecista” Neider Moreira, montou uma barreira de pedágio na MG-050, cobrando R$ 4,00 de carros e R$ 2,00 de motos. Surpreende que, a cobrança foi instituída numa rodovia de pista simples, sem a concessionária oferecer nenhum retorno aos usuários, tampouco duplicação de uma via que, em toda a sua história pós-centenária, jamais existiu pedágio. Como o senhor analisa esse tipo de ação furtiva por parte de alguns dos nossos governantes?

JAR – Os governos de um país que tem a maior carga tributária do mundo deveriam ter vergonha de autorizar a cobrança de pedágio. Isso é fruto da alienação do povo e da qualidade dos nossos políticos. Pelos impostos que pagamos, deveríamos ter as melhores estradas do mundo. Uma rodovia na Europa tem em sua base uma estrutura de 50 cm em média, aqui essa estrutura é de 5 cm. Tudo feito para durar quatro anos, que é o tempo do mandato de políticos vigaristas. Veja o que está acontecendo no Ministério dos Transportes. Foram 700 milhões de desvios e sabe o que vai acontecer com os vagabundos que fizeram essa safadeza? Nada! Isso mesmo, vão apresentar argumentos e provas forjadas e os nossos “deuses” da Justiça irão absolvê-los, deixando de dar o exemplo que serviria para estancar essa prática que virou rotina nas instituições governamentais.

 

VF – De modo geral, como o senhor vê a cobrança do pedágio no Brasil?

JAR – Um mal necessário, diante da inércia e da incompetência da classe que governa e administra a coisa publica no “país do jeitinho”. Contudo, ele é inadmissível em rodovias de pista simples e sem reforma.

 

VF – A proposta da criação do chamado Aeromóvel, um revolucionário veículo que trafegaria por estruturas montadas sobre as rodovias ou avenidas convencionais, elaborada por um engenheiro gaúcho, nem é mais discutida. Veículos alternativos como o Aeromóvel podem surgir para desafogar o problema dos transportes nas metrópoles brasileiras?

JAR – Estamos na Idade da Pedra, quando o assunto é infraestrutura. Para se ter uma ideia, o ex-ministro dos Transportes era um professor de matemática, que passou sua vida na Amazônia, onde o transporte acontece por hidrovias. Em entrevista à Rádio Nacional que transmite o programa “A voz do Brasil”, ele teve a coragem de dizer que as estradas brasileiras estão ótimas e que não temos motivos para reclamar. Para o digníssimo político, estrada boa é estrada asfaltada. Não sabe o que é uma estrada decente. Nunca deve ter visitado a Alemanha ou mesmo São Paulo, onde existem estradas seguras e bem construídas. Portanto, tudo termina e começa na política, na qualidade dos políticos que o povo deixa por conta dos caciques, donos de partidos, como é o caso desse elemento que acabamos de citar. O modelo de governança que é embasado pelo governo de coalizão é um balcão de negócios e precisa acabar. O interesse de partidos sobrepõe ao interesse do conjunto da sociedade e isso não funciona. Quem deveria fiscalizar, enquadrar e fazer as leis valerem, não tem com o que preocupar, está com a vida feita. Falo do Judiciário e do Ministério Público.

 

VF – Como o senhor projeta os problemas de trânsito nas grandes cidades brasileiras para daqui a 10 anos?

JAR – Chegamos ao fim do poço, algo terá que acontecer. Sou otimista e acho que aqueles que se omitem e deveriam participar mais estão acordando. Falo da classe empresarial, da academia, dos pensadores e, sobretudo, da imprensa, que nunca na história deste país denunciou tanto. O problema é que o povo continua dormindo em um sono profundo, em estado de letargia, preocupado com o futebol, com as novelas e com o espetáculo midiático. A política do pão e do circo prevalece e quem pode salvar este país ainda é uma parcela pequena dos que pensam e tem discernimento. Pelo voto, isso jamais vai acontecer, pois o povo como juiz da democracia é um desastre. Tiririca, Romário e o BBB Max, que o digam.

 

VF – Agradecemos pela entrevista e pedimos para nos deixar suas considerações finais.

JAR – Parabéns ao Via Fanzine pela oportunidade e por ser um canal de comunicação autônomo, que tem coragem de mostrar a realidade como ela é, sem medo da verdade e sem vender a alma em troca de anúncios de órgãos oficiais. O jornalismo tem um papel importante em uma sociedade passiva como a nossa. Foi assim no regime militar e precisa ser assim agora, que exercemos nossa liberdade, mas estamos inertes diante da corrupção e da falta de decência na política. Nossa ONG está propondo uma campanha contra a corrupção e a falta de decência na política. A ação é simples, basta acender os faróis dos carros durante o dia e mantê-los acesos até que o país todo esteja de faróis acesos. Imaginem o efeito disso na  moral do povo que está apático? Acenda os faróis contra a corrupção, é fácil e não custa nada.

 

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