Legados da Copa para BH, longe de ser a solução para os problemas da cidade

O conceito de legado é utilizado para medir os efeitos de um mega evento como a Copa do Mundo ou Olimpíadas, nas cidades onde eles acontecem. Exemplos positivos podem ser constatados em Seul, na Coréia do Sul, quando essa cidade se preparou para as Olimpíadas de 1988. Na ocasião sua infra estrutura viária, de transporte e as arenas de eventos foram totalmente reorganizadas e as obras deixaram benefícios que até hoje servem à sua população. Mas há também exemplos negativos como os da África do Sul, onde estádios, nas cidades de Pretória e Johanesburgo servem apenas para lembrar o rombo nos cofres públicos e os exemplos que não devem ser seguidos, estão todos vazios e sem utilidade. Obras que estão deteriorando e que foram uteis por períodos muito pequenos.

 

Belo Horizonte está recebendo benefícios de financiamentos federais a fundo perdido para se preparar e muitas das obras que estão sendo feitas ficarão para sempre servindo a população. A própria reforma do Estádio do Mineirão, que transformou ele em uma Arena multiuso foi uma dessas que servem de exemplo e que serão uteis, uma vez que dotou a cidade de um mega espaço para eventos, enriquecendo a cultura não só de BH, mas de todo o Estado. Apesar da sua atividade principal ser o futebol, eventos culturais recentes provaram que o Mineirão pode, com alguns ajustes, sediar shows internacionais capazes de atrair público de várias partes do Brasil, trazendo benefícios para a economia, especialmente o turismo.

 

Outras obras que ficarão para sempre é a duplicação das Av. Cristiano Machado e Antonio Carlos, para receber o BRT/MOVE, o novo modal de transporte que melhora a qualidade do transporte coletivo para quem já usa os serviços na ligação da região central da cidade à região norte, integrando ao metrô e as estações de transbordo que estão sendo construídas ao longo destes dois grande corredores. Obras que são construídas para a Copa, mas que ficam e dotam a cidade de infra estrutura confirmando o conceito de legado. Nenhum governo em sã consciência faria obras apenas para atender a um evento, por maior que ele seja, e a um custo elevadíssimo. Mas o que está aí é o suficiente para a cidade enfrentar os problemas de mobilidade, falta de moradia, transporte e outras?

 

Evidente que não, a cidade continua abrigando e convivendo passivamente com 169 favelas, onde moram 330 mil pessoas em condições precárias. O déficit habitacional passa de 80 mil moradias. Repare também que milhares de cidadãos, especialmente os que vivem com renda mínima não poderão se quer chegar perto do Mineirão durante a realização deste mega evento. Irônico é imaginar que a conta será paga por todos, e não apenas os que tem dinheiro para comprar ingressos caros para assistir ao espetáculo, que é paixão de pobres e ricos. Mesmo com as obras de mobilidade feitas com recursos federais advindos de impostos liberados para a Copa, a cidade continuará enfrentando problemas gravíssimos na questão da mobilidade.

 

Existem hoje mais de 100 gargalos que não deixam o transito fluir esperando por obras como viadutos, trincheiras, elevados, tuneis, passarelas e alargamento de vias. Outra questão séria que permanecerá é a falta de modais de transportes capazes de atrair motoristas para o transporte publico, fazendo eles substituírem as viagens individuais pelo deslocamentos em transporte coletivo. Para isso o MOVE não tem apelo suficiente e esse publico espera por mais. Para atraí-lo a cidade precisará de metrô, monotrilho e outros meios de transportes confortáveis e modernos que ofereçam atrativos para os que estão migrando para o transporte individual.

 

Portanto, o legado fica, a um custo acima do esperado, devido a urgência das obras e ao planejamento feito as pressas, mas ainda assim a cidade permanecerá dependendo de  melhorias na sua infra estrutura, sobretudo aquelas que se destinam a população de baixa renda e os desafios permanecem, independente de Copa do Mundo.

 

José Aparecido Ribeiro

Consultor em Mobilidade e Assuntos Urbanos

Presidente do Conselho Empresarial de Política Urbana da ACMinas

Presidente da ONG SOS Moblidade Urbana

31-9953-7945

CRA MG 08.0094/D

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